Pilha Infinita ∞ + 4

Este é o número 4 da Pilha Infinita, meu resumo regular de leituras, filmes, papers, vídeos & ideias que ando explorando. O último foi em dezembro, então vou me concentrar no que de mais interessante eu explorei em janeiro. Se inscreva para ser avisado da publicação 🙂


“Object-Oriented Ontology: A New Theory of Everything”, Graham Harman (2018)

Um “pequeno grande livro” onde Harman busca explica todos os fundamentos dessa nova proposta de filosofia, chamada por ele de Ontologia Orientada a Objetos ou OOO.

Se o subtítulo parece grandioso, “A New Theory of Everything” é por que ele parte do questionamento da busca da “teoria de tudo” da Física, sendo que o que acredita-se ser essa teoria, não poderia nem mesmo ser qualificada como uma “teoria de tudo” pois ela não incluiria uma epistemologia descritiva ou uma ontologia. Ambas Harman acredita que apenas a filosofia pode prover.

Ele buscou escrever de forma que tanto quem não sabe nada de filosofia quanto iniciados conseguissem acompanhar cada ideia apresentada e que fosse agradável de se ler. Acredito que em alguns momentos o autor entra em detalhes desnecessários mas no geral, um ótimo e imersivo livro de filosofia, sobre um dos temas que mais me interessei nos últimos tempos. Talvez o assunto de filosofia que mais me identifico e interesso no momento.


“Outras Mentes: O Polvo e a origem da consciência”, Peter Godfrey-Smith (2019)

Se tem algo de OOO que me fascinou, é o destronamento almejado de retirar a consciência humana e nosso acesso “privilegiado” ao mundo de alguma forma de protagonismo. Logo, ler um livro que trata do desenvolvimento da consciência e mentes em animais tão diversos de nosso ramo evolutivo é bem interessante.

Traz dados e informações bem interessantes e a leitura flui bem e rápido. Tão rápida que quando acabou me deixou uma sensação de me aprofundar mais em todos os temas que o autor mais abrindo e abrindo e muitos não fecham. Claro que se trata de ciência e exploração filosófica e para algumas questões simplesmente não há resposta definitiva. Um livro instigante!

Continue lendo

2018 em perspectiva

É sempre bom relembrar o que se passou no ano. Serve para ter em perspectiva o caminho que mesmo sem nos darmos conta, estamos seguindo. E com isso. ajustar rotas ou acelerar de vez. Este é um pedaço do meu ano, que foi um dos mais intensos. No campo pessoal passei por altos & baixos. Tive que me mudar repentinamente de casa, fiquei desalojado por um período de tempo, comecei um relacionamento que enche minha vida de significado, e recentemente tive uma perda bem grande me afeta ainda, mas que aos poucos estou lidando.


Escrita

Em 2017 eu comecei a manter um “calendário de produtividade”. Basicamente eu coloco um “X” em cada dia que eu consigo produzir, o ideal é continuar nesse fluxo, de produção. “Não quebre a corrente!”, é uma dica de produtividade do Jerry Seinfield. Cada dia que você trabalha em seu projeto, você faz um sinal. E no dia seguinte. E então no seguinte. O importante, para finalizar seu projeto ele diz, é simples: Não quebre a corrente! Os efeitos são bons e alguns dias são pesados e difíceis mas é importante não quebrar a corrente. É claro, que eu quebro, e muito, mas o importante é tentar manter o ritmo. Este foi foi uma foto tirada em 21 de março de 2017 quando iniciei essa metodologia:

E com isso, ao final do ano eu consegui identificar padrões e ter uma visão mais palpável de minha produtividade, cujo extrato do ano passado foi esta:

107 dias de produção. Melhores dias da semana em que produzi, em ordem: domingo, terça e quinta. Em ordem, os piores dias: sexta e quarta. Tirando sábados e domingos todos os dias eu produzo após o trabalho


Continue lendo

Pilha Infinita ∞ + 3

Este é o número 3 da Pilha Infinita, meu resumo regular de leituras, filmes, papers, vídeos & ideias que ando explorando. Se inscreva para ser avisado da publicação 🙂


“Gods and Robots: Myths, Machines, and Ancient Dreams of Technology”, Adrienne Mayor (2018)

Li “Gods and Robots” esta semana como uma forma de entender nossas relações históricas com robôs, autômatos & outras formas de tecnologia. Ainda que o livro seja bem centralizado em mitos e material greco-romano, traz informações chinesas & indianas de uma rica e envolvente história dos humanos imaginando criaturas “feitas, não nascidas” criadas por deuses ou outros humanos e nossas relações com eles e como isso se reflete, de forma assustadoramente familiar nas nossas questões atuais em relação às tecnologias.

Como a autora faz questão de frisar em vários momentos, é importante resistir à tentação de projetar motivações e suposições modernas de tecnologia sobre o mundo antigo. E realmente é bem fácil cair em uma espécie de “pensamento mágico” que começa a traçar uma linha clara entre os mitos & a tecnologia atual.

Continue lendo

10 melhores filmes que assisti em 2018

Revi muitos filmes este ano, mas compus esta lista apenas com os filmes que vi pela primeira vez no último ano e me impactaram mais. Ficou muitos fora da lista, mas listar é fazer escolhas, e estas foram as minhas. Como sempre a ordem não é de “melhor para menos melhor” pois não acho que dê para comparar muito a gradação do quanto eu gostei deste ou daquele. E eu também não coloco em minhas listas obras necessariamente deste ano, mas sim de qualquer época, mas que eu tenha descoberto nesse ano.


“Rebecca”, Alfred Hitchcock (1940) – no Brasil, “Rebecca, a Mulher Inesquecível”

Algo que costumo fazer é ver filmes tematicamente. Alguns podem ser mais focados como “filmes do diretor X” e outros mais arbitrários como “filmes com cores saturadas”. Esta eu juntei duas: ver filmes do Hitchcok e filmes com a temática de fantasma. Pelo menos o filme, é bem mais focado no psicológico em detrimento de qualquer acontecimento sobrenatural, mas achei um estudo bem interessante. Filme com uma ótima atmosfera e interessante até o fim.


“Shin Gojira”, Hideaki Anno e Shinji Higuchi (2016), no mercado internacional, “Godzilla Resurgence”

Este filme é um verdadeiro evento. Talvez tenha se valor só pelas cenas envolvendo o Godzilla, que nessa espécie de reboot por Hideaki Anno, criador de Evangelion e Shinji Higuchi, passa por evoluções como um Pokémon e possui um dos ataques mais inesperados e interessantes que já vi no cinema e pelo lado positivo! Só destacado isso pois uma das minhas surpresas no lado negativo este ano no cinema também foi em um filme do Godzilla, na década de 70 em que ele encontra uma forma um tanto sui generis de sair voando.

Mas para mim o grande potencial, e daí meu encantamento pela estrutura narrativa do filme é como eles narram um esforço coletivo do governo japonês em lidar com a ameaça.

Continue lendo

Pilha Infinita ∞ + 2

Este é o número 2 da minha newsletter, a Pilha Infinita. O objetivo é compartilhar algumas das coisas que estou lendo, pesquisando, explorando, assistindo e pesquisando. Se inscreva para ser avisado em primeira mão da publicação 🙂


Godzilla, arauto do antropoceno

Esta semana saiu um novo trailer para o próximo filme do Godzilla feito por um estúdio americano após o bem sucedido Godzilla de 2014, que ainda que não seja uma obra-prima, é muito superior ao infame “filme da Iguana” de 1998.

Uma das falas no trailer de “Godzilla: The King of the Monsters” chamou minha atenção. O diálogo é mais ou menos o seguinte, alguém ironiza o cientista do filme que ele quer tornar “Godizlla nosso animal de estimação” e ele afirma, que é precisamente o inverso, nós somos os animais de estimação dele. Sempre gostei muito dessa interpretação, ou melhor, dessa visão que muitos personagens assumem ao longo da série. Já que, pensando do ponto de vista não-humano, essas narrativas de que fazemos, ou ainda, diegeticamente, ouvimos de cientistas & pessoas, não passam de interpretações contextuais de uma realidade absolutamente não-humana do qual nunca teremos acesso, chamá-los de “guardiões” e mesmo “deuses”, não parece fazer muito sentido. Assim como Godzilla traz a destruição em seu próprio caminhar pela Terra, do qual ele parece ter pouco ou nenhum entendimento de que ele está destruindo o habitat de uma espécie. Como tenho me aprofundado em OOO, e sua visão do desastre das mudanças climáticas é essencialmente, “o desastre já aconteceu”, fiquei pensando em como ele é uma espécie de arauto do antropoceno.

Fiquei então com vontade de ver o filme original, Godzilla de 1954. E basicamente, o filme deixa bem claro que o Godzilla simplesmente está atacando pois, nas palavras do paleontólogo que investiga, “retirado de seu santuário” com os experimentos atômicos realizados pelos EUA. Há inclusive um debate em determinado momento para não se revelar a público a existência do monstro, uma vez que poderia prejudicar as relações diplomáticas. A solução inclusive é um novo tipo de inovação tecnológica, que seu criador teme caia nas mãos dos exércitos e se torne uma arma de destruição em massa como a bomba H, a chamada “Oxygen Destroyer”. Inclusive a cabeça ovalada do Godzilla foi feita assim para lembrar o cogumelo nuclear e sua pele irregular as feridas derivadas da exposição à radiação, traços que o Godzilla não apenas deixa por onde passa, mas é seu principal ataque, o “bafo atômico” (minha tradução de “atomic breath”, não sei a tradição canônica do termo). Godzilla então é a personificação dessas forças destrutivas, que acorda forças primais do planeta.

Continue lendo