Pilha Infinita ∞ + 2

Este é o número 2 da minha newsletter, a Pilha Infinita. O objetivo é compartilhar algumas das coisas que estou lendo, pesquisando, explorando, assistindo e pesquisando. Se inscreva para ser avisado em primeira mão da publicação 🙂


Godzilla, arauto do antropoceno

Esta semana saiu um novo trailer para o próximo filme do Godzilla feito por um estúdio americano após o bem sucedido Godzilla de 2014, que ainda que não seja uma obra-prima, é muito superior ao infame “filme da Iguana” de 1998.

Uma das falas no trailer de “Godzilla: The King of the Monsters” chamou minha atenção. O diálogo é mais ou menos o seguinte, alguém ironiza o cientista do filme que ele quer tornar “Godizlla nosso animal de estimação” e ele afirma, que é precisamente o inverso, nós somos os animais de estimação dele. Sempre gostei muito dessa interpretação, ou melhor, dessa visão que muitos personagens assumem ao longo da série. Já que, pensando do ponto de vista não-humano, essas narrativas de que fazemos, ou ainda, diegeticamente, ouvimos de cientistas & pessoas, não passam de interpretações contextuais de uma realidade absolutamente não-humana do qual nunca teremos acesso, chamá-los de “guardiões” e mesmo “deuses”, não parece fazer muito sentido. Assim como Godzilla traz a destruição em seu próprio caminhar pela Terra, do qual ele parece ter pouco ou nenhum entendimento de que ele está destruindo o habitat de uma espécie. Como tenho me aprofundado em OOO, e sua visão do desastre das mudanças climáticas é essencialmente, “o desastre já aconteceu”, fiquei pensando em como ele é uma espécie de arauto do antropoceno.

Fiquei então com vontade de ver o filme original, Godzilla de 1954. E basicamente, o filme deixa bem claro que o Godzilla simplesmente está atacando pois, nas palavras do paleontólogo que investiga, “retirado de seu santuário” com os experimentos atômicos realizados pelos EUA. Há inclusive um debate em determinado momento para não se revelar a público a existência do monstro, uma vez que poderia prejudicar as relações diplomáticas. A solução inclusive é um novo tipo de inovação tecnológica, que seu criador teme caia nas mãos dos exércitos e se torne uma arma de destruição em massa como a bomba H, a chamada “Oxygen Destroyer”. Inclusive a cabeça ovalada do Godzilla foi feita assim para lembrar o cogumelo nuclear e sua pele irregular as feridas derivadas da exposição à radiação, traços que o Godzilla não apenas deixa por onde passa, mas é seu principal ataque, o “bafo atômico” (minha tradução de “atomic breath”, não sei a tradição canônica do termo). Godzilla então é a personificação dessas forças destrutivas, que acorda forças primais do planeta.

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10 melhores livros que li em 2018

Costumava fazer essas retrospectivas no Facebook, mas acredito que faz muito mais sentido fazer no meu próprio “quintal” digital ainda que o link vá circular por lá.  A ideia é mais um exercício pessoal de olhar para trás e analisar o que de melhor eu li e como eu acredito que essas obras me impactaram.  A ordem não é de “melhor para menos melhor” pois não acho que dê para comparar muito a gradação do quanto eu gostei deste ou daquele. E note que são livros que li em 2018, não são necessariamente edições deste ano ou mesmo lançamentos, ainda que um ou outro sejam, mas apenas os que li. Sempre fica coisa de fora e me pego pensando “deveria ter colocado X” ou “Ah e Y! Poxa, esqueci Y” , mas uma lista tal como essa, é sempre incompleta e assumindo isso, aqui vou eu:


“O Idiota”, Fiódor Dostoiévski

Talvez um dos maiores livros que eu tenha lido na vida. O Príncipe Míchkin me impactou muito, assim como vários personagens ao longo do livro. “O Idiota” é o segundo, cronologicamente na composição, dos “Cinco Elefantes” escritos por Dostoiévski (“Crime e Castigo”, “O Idiota”, “Os Demônios”, “O Adolescente” e “Os Irmãos Karamazov”), apelido dado aos romances da maturidade do escritor no documentário “Die Frau mit den 5 Elefanten” (A mulher com os 5 elefantes), sobre a história de Svetlana Geier, que traduziu do original os cinco grandes romances, só que para o alemão. No Brasil, a tarefa coube a Paulo Bezerra, e a Folha fez uma matéria a respeito.

Dostoiévski te leva a fundo na alma humana, e olha, algumas visões são terríveis, terríveis. Mas, sempre, necessárias. Recomendo com muita ênfase que busquem as edições da editora 34. Na adolescência gravitei para tentar ler os romances dele mas as traduções do francês me afastaram de conhecer sua obra antes, o que só foi possível com as competentes traduções desta casa editorial. Tudo deles e o trabalho do Rubens Figueiredo, pela Cosac antes e agora Cia das Letras e Todavia, recomendo de olhos fechados. Eles o te levarão a um caminho sem volta para se apaixonar por literatura russa!

Meu projeto atual de leitura é ler os cinco elefantes na ordem em que foram escritos, estou agora para iniciar “Os Demônios”.

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Pilha Infinita ∞ + 1

Este é o número inaugural da minha newsletter, a Pilha Infinita. O objetivo é compartilhar algumas das coisas que estou lendo, pesquisando, explorando, assistindo e pesquisando.

“Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política”, Evgeny Morozov, 2018 pela Ubu, livro físico 

Acompanho o trabalho do Morozov desde que li, anos atrás o livro “To Save Everything, Click Here” em que ele denunciava o que chamou de “solucionismo”, uma prática corrente do Vale do Silício mas que foi exportada com muito sucesso para todo o mundo de que basta linhas de código e todos os problemas do mundo serão resolvidos. Eu mesmo já estive completamente imerso nesse contexto, fui “co-fundador” de uma startup e participei de dezenas de eventos como participante e mais tarde mentor. Sistemas e relações complexas não conseguem ser resolvidos de forma simples por mais que seu aplicativo pareça incrível, mas é incrível como é sedutor esses “Simplificadores absolutos” que nos levam a acreditar que problemas e fenômenos complexos tem soluções e causas simples.  Nos ensaios do livro, Morozov aborda mais uma vez isso contextualizando política e economicamente a colonização tecnológica que estamos imersos e muitas vezes nem nos damos conta. Livro fundamental para se pensar criticamente o momento atual em nossa sociedade.

Acompanhe o autor no Twitter. O livro está disponível na versão física, inclusive direto da editora, e digital, na AmazonLeitura imprescindível.

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“O Monstro de Mariana”

Sei bem que os deixei apreensivos ficando tanto tempo sem falar. Mas as ideias corriam de mim, em todas as direções, as palavras pareciam ser meras peças associadas arbitrariamente a sons guturais que nada significavam. Não conseguiria me expressar, nem que tentasse. Não era bloqueio, não era falta — pelo contrário: era excesso, era abundância; eu transbordava.

O Monstro de Mariana

Escrevi o conto “O Monstro de Mariana” em 2017 como resultado do “Final de Semana do Terror”, uma iniciativa de juntar escritores nos mais diversos níveis de escrita com escritores já consagrados seja pela crítica ou pelo mercado. Participei como um dos mais amadores, sem nenhum conto publicado no gênero. A ideia era passar um final de semana em um sítio isolado com autores convidados Ilana Casoy, Raphael Montes e Santiago Nazarian, e a editora Mariana Rolier. Via como uma chance de apresentar a história em que trabalhava na época e se encaixa no gênero e colher feedback e também como uma ótima experiência de imersão e aprendizado. Sentia que eles tinham muito a nos ensinar — e realmente foi uma experiência transformadora.

Passado um ano, eu ainda continuo trabalhando na história que trabalhava naquela época! E que alterei fundamentalmente com base nos feedbacks e nas conversas que presenciei. Um dos nossos objetivos era um mês a partir daquele encontro, escrever um conto para, juntos, publicar uma antologia. Como a história que trabalhava era um romance e não queria explorá-la em conto — para mim se trata muito da estrutura e da forma de desenvolvê-la. Cada história pede uma estrutura diferente e não via como colocar a minha no formato conto, então ao longo do evento eu buscava também descobrir sobre o que escrever.

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