Pilha Infinita ∞ + 6

Este é o número 6 da Pilha Infinita, meu resumo regular de leituras, filmes, papers, vídeos & ideias que ando explorando. Em março continuei seguindo minha linha de pesquisa anterior sobre o meio ambiente e mais precisamente o efeito acumulado de bilhões de humanos agindo no planeta, com alguns necessários desvios para ficções mais curtas e em quadrinhos, principalmente, além da leitura deste mês do clube de leitura que participo. Se inscreva para ser avisado da publicação 🙂


“The Ends of the World: Volcanic Apocalypses, Lethal Oceans, and Our Quest to Understand Earth’s Past Mass Extinctions”, Peter Brannen

“The Ends of the World”, leva por uma jornada mesmerizante através das grandes extinções que já aconteceram na longa história deste planeta. O jornalista é bem hábil em nos fazer mergulhar, trazendo aqueles detalhes enciclopédicos e extremamente específicos mas que nos transportam e colorem as histórias que estamos lendo. Interessante em como o autor nos leva a contemplar o passado através da lente de nosso presente, por exemplo, comparando as emissões anuais de Carbono com aquelas que mergulharam o planeta em uma de suas grandes extinções, além de nos mostrar o diálogo que é a ciência e como vozes dissonantes interpretam os mesmos dados — ou os contestam.

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Pilha Infinita ∞ + 5

Este é o número 5 da Pilha Infinita, meu resumo regular de leituras, filmes, papers, vídeos & ideias que ando explorando. Em fevereiro me concentrei mais em livros, com especial atenção às questões do ambiente, pois é algo que me preocupa mais no momento e sobre o qual estou desenvolvendo minha criação atual, provavelmente um conto expandindo um dos meus contos anteriores. Se inscreva para ser avisado da publicação 🙂


“Hyperobjects: Philosophy and Ecology after the End of the World”, Timothy Morton

Em “Hyperobjects: Philosophy and Ecology after the End of the World“, Morton nos leva, através de seu estilo bem único de escrita e de pensamento a explorar esse conceito do “hyperobjeto”. Basicamente ele define essas entidades que existem um dimensões espaciais e temporárias tão imensas que nós não conseguimos percebê-las por completo, exceto por suas partes ou por mensurações, fugindo do conceito tradicional de “coisa”. Estas são unidades “massivamente distribuídas em tempo e espaço relativo aos humanos”. Pense nelas como o Aquecimento Global, a Mata Atlântica, o mercado de ações, todo o urânio no planeta.

Se trata de uma forma, seguindo as explorações do autor da OOO – Ontologia Orientada a Objetos em relação ao antropoceno. Uma instigante leitura buscando definir esses objetos que por definição fogem à nossa concepção e compreensão total. Pessoalmente, em uma analogia um tanto precária, mas que estimula meu pensamento, os vejo como essas entidades de Lovecraft, massivamente distribuídos no tempo e espaço e para as quais os afazeres humanos são ridículos e insignificantes, ainda que tenhamos um papel a desempenhar — por exemplo, criando o Aquecimento Global.


“The Conspiracy Against Human Race”, Thomas Ligotti

Literalmente levei anos para terminar. “The Conspiracy Against Human Race” se debruça sobre a falta de significado na existência. O assunto é pesado, e se muitas vezes abandonei simplesmente por que estava interessado em ler outras coisas, pois embora considere muito do que esteja escrito ali uma definição bem realista do mundo e nosso papel no grande esquema das coisas, ele rapidamente se torna derrotista, no sentido de não ter nenhum ponto de fuga, nada que ofereça alguma resistência à entropia dessa filosofia que nos ameaça devorar vivos. Ainda que tenha levado um tempo para concluir o livro, ele já havia inspirado a espinha dorsal temática que utilizei em “O Monstro de Mariana”.

Esse livro foi inspiração para a filosofia do personagem Rust Cole, da primeira temporada de True Detective. Que já no primeiro episódio se define desta forma, em minha tradução livre:

Eu me considero um realista, certo? Mas em termos filosóficos sou o que se chama de pessimista… Acredito que a consciência humana é um trágico erro na evolução. Nos tornamos auto-conscientes demais. A natureza criou um aspecto da natureza que se separou de si mesma — nós somos criaturas que não deveriam existir pela lei natural… Nós somos coisas que operam sob a ilusão de possuir um eu, essa acreção dos sentimentos e experiências sensoriais, programados com total garantia de que cada um é alguém, quando todos são ninguém… Acredito que a coisa digna a se fazer por nossa espécie é negar nossa programação. Parar de nos reproduzirmos, andar de mãos dadas em direção à extinção, irmãos e irmãs optando sair de um acordo cruel.

Rustin Cohle em “True Detective: The Long Bright Dark (#1.1)”

Dá para ver por esse pequeno trecho do que se trata o livro. E ele vai bem, bem mais fundo no poço e não nos apresenta nenhuma saída ou forma de redenção. Leve a sua própria luz.

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Pilha Infinita ∞ + 4

Este é o número 4 da Pilha Infinita, meu resumo regular de leituras, filmes, papers, vídeos & ideias que ando explorando. O último foi em dezembro, então vou me concentrar no que de mais interessante eu explorei em janeiro. Se inscreva para ser avisado da publicação 🙂


“Object-Oriented Ontology: A New Theory of Everything”, Graham Harman (2018)

Um “pequeno grande livro” onde Harman busca explica todos os fundamentos dessa nova proposta de filosofia, chamada por ele de Ontologia Orientada a Objetos ou OOO.

Se o subtítulo parece grandioso, “A New Theory of Everything” é por que ele parte do questionamento da busca da “teoria de tudo” da Física, sendo que o que acredita-se ser essa teoria, não poderia nem mesmo ser qualificada como uma “teoria de tudo” pois ela não incluiria uma epistemologia descritiva ou uma ontologia. Ambas Harman acredita que apenas a filosofia pode prover.

Ele buscou escrever de forma que tanto quem não sabe nada de filosofia quanto iniciados conseguissem acompanhar cada ideia apresentada e que fosse agradável de se ler. Acredito que em alguns momentos o autor entra em detalhes desnecessários mas no geral, um ótimo e imersivo livro de filosofia, sobre um dos temas que mais me interessei nos últimos tempos. Talvez o assunto de filosofia que mais me identifico e interesso no momento.


“Outras Mentes: O Polvo e a origem da consciência”, Peter Godfrey-Smith (2019)

Se tem algo de OOO que me fascinou, é o destronamento almejado de retirar a consciência humana e nosso acesso “privilegiado” ao mundo de alguma forma de protagonismo. Logo, ler um livro que trata do desenvolvimento da consciência e mentes em animais tão diversos de nosso ramo evolutivo é bem interessante.

Traz dados e informações bem interessantes e a leitura flui bem e rápido. Tão rápida que quando acabou me deixou uma sensação de me aprofundar mais em todos os temas que o autor mais abrindo e abrindo e muitos não fecham. Claro que se trata de ciência e exploração filosófica e para algumas questões simplesmente não há resposta definitiva. Um livro instigante!

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Pilha Infinita ∞ + 3

Este é o número 3 da Pilha Infinita, meu resumo regular de leituras, filmes, papers, vídeos & ideias que ando explorando. Se inscreva para ser avisado da publicação 🙂


“Gods and Robots: Myths, Machines, and Ancient Dreams of Technology”, Adrienne Mayor (2018)

Li “Gods and Robots” esta semana como uma forma de entender nossas relações históricas com robôs, autômatos & outras formas de tecnologia. Ainda que o livro seja bem centralizado em mitos e material greco-romano, traz informações chinesas & indianas de uma rica e envolvente história dos humanos imaginando criaturas “feitas, não nascidas” criadas por deuses ou outros humanos e nossas relações com eles e como isso se reflete, de forma assustadoramente familiar nas nossas questões atuais em relação às tecnologias.

Como a autora faz questão de frisar em vários momentos, é importante resistir à tentação de projetar motivações e suposições modernas de tecnologia sobre o mundo antigo. E realmente é bem fácil cair em uma espécie de “pensamento mágico” que começa a traçar uma linha clara entre os mitos & a tecnologia atual.

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Pilha Infinita ∞ + 2

Este é o número 2 da minha newsletter, a Pilha Infinita. O objetivo é compartilhar algumas das coisas que estou lendo, pesquisando, explorando, assistindo e pesquisando. Se inscreva para ser avisado em primeira mão da publicação 🙂


Godzilla, arauto do antropoceno

Esta semana saiu um novo trailer para o próximo filme do Godzilla feito por um estúdio americano após o bem sucedido Godzilla de 2014, que ainda que não seja uma obra-prima, é muito superior ao infame “filme da Iguana” de 1998.

Uma das falas no trailer de “Godzilla: The King of the Monsters” chamou minha atenção. O diálogo é mais ou menos o seguinte, alguém ironiza o cientista do filme que ele quer tornar “Godizlla nosso animal de estimação” e ele afirma, que é precisamente o inverso, nós somos os animais de estimação dele. Sempre gostei muito dessa interpretação, ou melhor, dessa visão que muitos personagens assumem ao longo da série. Já que, pensando do ponto de vista não-humano, essas narrativas de que fazemos, ou ainda, diegeticamente, ouvimos de cientistas & pessoas, não passam de interpretações contextuais de uma realidade absolutamente não-humana do qual nunca teremos acesso, chamá-los de “guardiões” e mesmo “deuses”, não parece fazer muito sentido. Assim como Godzilla traz a destruição em seu próprio caminhar pela Terra, do qual ele parece ter pouco ou nenhum entendimento de que ele está destruindo o habitat de uma espécie. Como tenho me aprofundado em OOO, e sua visão do desastre das mudanças climáticas é essencialmente, “o desastre já aconteceu”, fiquei pensando em como ele é uma espécie de arauto do antropoceno.

Fiquei então com vontade de ver o filme original, Godzilla de 1954. E basicamente, o filme deixa bem claro que o Godzilla simplesmente está atacando pois, nas palavras do paleontólogo que investiga, “retirado de seu santuário” com os experimentos atômicos realizados pelos EUA. Há inclusive um debate em determinado momento para não se revelar a público a existência do monstro, uma vez que poderia prejudicar as relações diplomáticas. A solução inclusive é um novo tipo de inovação tecnológica, que seu criador teme caia nas mãos dos exércitos e se torne uma arma de destruição em massa como a bomba H, a chamada “Oxygen Destroyer”. Inclusive a cabeça ovalada do Godzilla foi feita assim para lembrar o cogumelo nuclear e sua pele irregular as feridas derivadas da exposição à radiação, traços que o Godzilla não apenas deixa por onde passa, mas é seu principal ataque, o “bafo atômico” (minha tradução de “atomic breath”, não sei a tradição canônica do termo). Godzilla então é a personificação dessas forças destrutivas, que acorda forças primais do planeta.

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