Pilha Infinita ∞ + 6

Este é o número 6 da Pilha Infinita, meu resumo regular de leituras, filmes, papers, vídeos & ideias que ando explorando. Em março continuei seguindo minha linha de pesquisa anterior sobre o meio ambiente e mais precisamente o efeito acumulado de bilhões de humanos agindo no planeta, com alguns necessários desvios para ficções mais curtas e em quadrinhos, principalmente, além da leitura deste mês do clube de leitura que participo. Se inscreva para ser avisado da publicação 🙂


“The Ends of the World: Volcanic Apocalypses, Lethal Oceans, and Our Quest to Understand Earth’s Past Mass Extinctions”, Peter Brannen

“The Ends of the World”, leva por uma jornada mesmerizante através das grandes extinções que já aconteceram na longa história deste planeta. O jornalista é bem hábil em nos fazer mergulhar, trazendo aqueles detalhes enciclopédicos e extremamente específicos mas que nos transportam e colorem as histórias que estamos lendo. Interessante em como o autor nos leva a contemplar o passado através da lente de nosso presente, por exemplo, comparando as emissões anuais de Carbono com aquelas que mergulharam o planeta em uma de suas grandes extinções, além de nos mostrar o diálogo que é a ciência e como vozes dissonantes interpretam os mesmos dados — ou os contestam.


“Uma Noite em L’Enfer”, Davi Calil

“Uma Noite em L’Enfer” tomei contato através do vídeo “Devaneios sobre representações de Van Gogh” do canal Quadro Branco. Fiquei tão fascinado com a ideia de uma quadrinho em que Van Gogh seria protagonista de um brasileiro que imediatamente fiz minha contribuição. O vídeo do Quadro Branco eu já havia levemente ficado incomodado pois ele usa o argumento do especial da Netflix “Nanette”, que faz em um dos seus momentos uma afirmação sobre Van Gogh que colocando de forma direta, está errado. Ela associa o amarelo do Van Gogh, ou sua fase amarela com os Girassóis com o uso de um medicamento para depressão. Já foi levantada essa hipótese antes, em especial indicando o tratamento por Digitalis do Dr. Gachet, que era um entusiasta do tratamento. Acontece que Van Gogh conhece Gachet em seus últimos 70 dias de vidas, quando se muda para Auvers-sur-ouise, 90km de Paris. Os girassóis foram pintados em Arles, antes e durante o período em que Gauguin se juntou a ele e culminou no episódio tão bem conhecido da mutilação da orelha. Episódio este que inicia seu tratamento com acompanhamento médico. Basicamente, a cronologia de efeito e reação não bate.

Voltando ao “Uma Noite em L’Enfer”: não gostei. Acredito na liberdade da intenção autoral: o autor pode fazer o que quiser. Assim como acredito na liberdade de interpretação de leitor, então me reservo ao direito de não gostar. Embora tenha algumas partes boas, no geral não pude apreciar totalmente. Abre com a narração de Van Gogh após o tiro, mas situa em Arles, sendo que o incidente aconteceu em Auvers-sur-Ouise, bem distante de Arles! E então tem uma cena que refaz o quarto dele, que esse sim era em Arles mas o autor preferiu colocar em Bruxelas. Talvez por conhecer tanto do Van Gogh não consiga apreciar essas licenças que para mim soam como despropósitos. Ainda faz o Van Gogh violar um cadáver! — um cadáver! O que achei péssimo, péssimo. Aliás algumas histórias tendo muitos momentos bem questionáveis, algumas com boas referências como a do Goya, mas tenta por fim fazer uma reviravolta bizarra, que não faz justiça nenhuma à personagem histórica da Siren, a mulher que teve o maior relacionamento afetivo com Van Gogh. Enfim, esperava mais, tanto tematicamente como em termos de narrativa.


“Being Ecological”, Timothy Morton

O Timothy Morton mais acessível de todos que já tive contato. Aqui ele nos apresenta um livro de ecologia que tenta ser, de acordo com o projeto proposto pelo mesmo logo na introdução, diferente de todos os outros livros de ecologias, sem citar um monte de fatos. Acho que ele faz muito bem o serviço, ainda que meu predileto continue sendo “Hyperobjects”, que abriu tantas portas mentais, filosóficas, ontológicas e criativas para mim.


“A Morte de Ivan Ilitch em Quadrinhos”, Liev Tolstói

O que falar da melhor novela de todos os tempos? Sempre bom ler o mestre, interessante a camada visual dos quadrinhos, honestamente o Ivan da minha mente era bem mais velho do que o representado nesta adaptação.


“The Quadruple Object”, Graham Harman

Este aqui eu quase chamaria de “livro técnico”, curto, focado, trata da decomposição — ou poderíamos dizer anatomia? — dos objetos de acordo com a Ontologia Orientada a Objetos. Nos leva aqui próximo ao coração selvagem da Coisa-Em-Si, tão perto quanto podemos chegar. “The Quadruple Object” é a investigação das múltiplas formas de acesso que os objetos possuem entre si (sendo nós também um desses objetos).


“Flores para Algernon”, Daniel Keyes

Leitura do clube do livro que participo. “Flores para Algernon” é emocionante vários pontos, uma leitura interessante na chave da ficção científica, mais focado em como as pessoas se transformam com as mudanças da tecnologia e ciência do que nos termos, invenções e maquinários que muitas vezes é associado ao gênero (que alguns poderiam argumentar que é uma classificação precipitada e superficial, mas honestamente faz parte do fetiche do gênero e foi seu foco por muito tempo).


“Staying with the Trouble: Making Kin in the Chthulucene”, Donna J. Haraway

Note que é Chthluceno (Chthlucene ) não Cthuluceno! A autora faz várias vezes esse aviso para que o leitor não assuma outra coisa. Um livro interessante, que abre múltiplas formas de pensar nossas relações com o mundo externo a nós mesmos. Confesso que me desfoquei muito no final, na exploração fictícia que ela faz, que me soou bem dissonante com as explorações dos capítulos anteriores. “Staying with the Trouble: Making Kin in the Chthlucene” é um livro denso, acho que com mais de uma centena de páginas de referências.


“Uzumaki”, Junji Ito

Finalmente conclui esta obra do mestre do horror em mangá Junji Ito, “Uzumaki“. Muito interessante em alguns momentos, apenas bizarro em outros acredito que no geral é uma obra bem interessante, observando seus altos e baixos. Acredito que pelo motivo de ter sido uma série mensal, a estrutura episódica, ao menos para mim, criava uma atmosfera de descrença em alguns momentos: como tal personagem ainda age tão passivamente sendo que dois episódios atrás ela ou alguém próximo teve uma experiência tão radical? Fora isso, uma obra interessante e com surpresas macabras.


“Rio Doce: A espantosa evolução de um vale”, Marco Antônio Tavares Coelho

Lendo mais sobre a história do “Rio Doce”, e surpreso com a limpeza étnica empreendida contra os índios “botocudos” — uma invenção, inclusive. Talvez surpreso não seja a palavra correta, enojado, do “processo civilizatório” ter tido como uma premissa, como parte integrante, o extermínio de civilizações inteiras. Costumava acreditar que se tratava de uma espécie de efeito colateral indesejado, por doenças principalmente — não, teve literalmente cartas régias expedidas para se assassinar todo e qualquer indígena. A fundação de nosso país foi feita em sangue.


“The Uninhabitable Earth: Life After Warming”, David Wallace-Wells

The Uninhabitable Earth” foi um artigo da New York que se tornou viral, provocando tantas reações e questionamentos que o autor teve que colocar um novo artigo no ar, o mesmo texto mas anotado com links, referências e fontes de cada declaração. E agora, temos o livro, que começa no mesmo tom: é muito, muito pior do que costumamos imaginar. O que se segue é um inventário minucioso de todas as, centenas, de formas o mundo vai se transformar e colocar em risco a existência de milhares, senão bilhares de pessoas. Passando por eventos como o aumento dos mares, acabando literalmente com cada praia existente no mundo, a inundação de Miami e Bangladesh e é claro, até as mais catastróficas como a extinção da espécie do Homo Sapiens. Não é uma leitura fácil, mas é preciso olhar nos olhos do problema. O Brasil inclusive é citado, já que um dos planos do Bolsonaro para a Amazônia, um dos maiores biomas do mundo, pode colocar no sistema planetário a mesma emissão de carbono que um Estados Unidos e uma China contribuem, ao mesmo tempo. O Aquecimento Global não é algo que está acontecendo lá fora ou que vai nos afetar em alguns anos. Está acontecendo, está acontecendo agora. E nossas ações vão ter um impacto em como será nosso futuro, e ao que parece, ao menos para seres humanos, será uma Terra Inabitável.


“Jamais Fomos Modernos”, Bruno Latour

Sempre citado por Graham Harman, precisei ler a fonte primária. Interessante discussão do sentido de modernidade e como fazer sentido das nossas categorizações. Um belo exemplo de como fundamentos filosóficos se processam na realidade. “Jamais Fomos Modernos” é uma leitura rápida e bem interessante.


“A Invenção da Cultura”, Roy Wagner

Interessante exposição de como co-criamos a todo momento a cultura e também de como acontece o contato entre culturas diferentes. Longe de ser um livro técnico, apego a jargões, tem uma leitura leve, como um ensaio, e vai nos levando através de uma miríade de exemplos .


“O Duplo”, Otto Rank

É um livro de 1925, mas que se lê como um contemporâneo. Boa exposição de um dos grandes temas — o duplo. Um tema que tenho me debruçado bastante. Interessante a leitura deste ensaio com “O Inquietante” do Freud, de quem Otto era discípulo, de 1919.


“Multi-Scale Turing Patterns”, Ricky Reusser

Contando com duas galerias, “Multi-Scale Turing Patterns” e “Multi-Scale Turing Patterns 2” e que você pode experimentar aqui, fiquei mesmerizado com a beleza desses padrões que emergem de regras simples. Sugiro a leitura desta postagem e também de “The Chemical Basis of Morphogenesis”, de 1952 do próprio Turing sobre a morfogênese. Aqui há uma matéria que descreve uma de suas aplicações, como os padrões em animais multicelulares.


Primeira vez por aqui? Veja também:

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