Pilha Infinita ∞ + 5

Este é o número 5 da Pilha Infinita, meu resumo regular de leituras, filmes, papers, vídeos & ideias que ando explorando. Em fevereiro me concentrei mais em livros, com especial atenção às questões do ambiente, pois é algo que me preocupa mais no momento e sobre o qual estou desenvolvendo minha criação atual, provavelmente um conto expandindo um dos meus contos anteriores. Se inscreva para ser avisado da publicação 🙂


“Hyperobjects: Philosophy and Ecology after the End of the World”, Timothy Morton

Em “Hyperobjects: Philosophy and Ecology after the End of the World“, Morton nos leva, através de seu estilo bem único de escrita e de pensamento a explorar esse conceito do “hyperobjeto”. Basicamente ele define essas entidades que existem um dimensões espaciais e temporárias tão imensas que nós não conseguimos percebê-las por completo, exceto por suas partes ou por mensurações, fugindo do conceito tradicional de “coisa”. Estas são unidades “massivamente distribuídas em tempo e espaço relativo aos humanos”. Pense nelas como o Aquecimento Global, a Mata Atlântica, o mercado de ações, todo o urânio no planeta.

Se trata de uma forma, seguindo as explorações do autor da OOO – Ontologia Orientada a Objetos em relação ao antropoceno. Uma instigante leitura buscando definir esses objetos que por definição fogem à nossa concepção e compreensão total. Pessoalmente, em uma analogia um tanto precária, mas que estimula meu pensamento, os vejo como essas entidades de Lovecraft, massivamente distribuídos no tempo e espaço e para as quais os afazeres humanos são ridículos e insignificantes, ainda que tenhamos um papel a desempenhar — por exemplo, criando o Aquecimento Global.


“The Conspiracy Against Human Race”, Thomas Ligotti

Literalmente levei anos para terminar. “The Conspiracy Against Human Race” se debruça sobre a falta de significado na existência. O assunto é pesado, e se muitas vezes abandonei simplesmente por que estava interessado em ler outras coisas, pois embora considere muito do que esteja escrito ali uma definição bem realista do mundo e nosso papel no grande esquema das coisas, ele rapidamente se torna derrotista, no sentido de não ter nenhum ponto de fuga, nada que ofereça alguma resistência à entropia dessa filosofia que nos ameaça devorar vivos. Ainda que tenha levado um tempo para concluir o livro, ele já havia inspirado a espinha dorsal temática que utilizei em “O Monstro de Mariana”.

Esse livro foi inspiração para a filosofia do personagem Rust Cole, da primeira temporada de True Detective. Que já no primeiro episódio se define desta forma, em minha tradução livre:

Eu me considero um realista, certo? Mas em termos filosóficos sou o que se chama de pessimista… Acredito que a consciência humana é um trágico erro na evolução. Nos tornamos auto-conscientes demais. A natureza criou um aspecto da natureza que se separou de si mesma — nós somos criaturas que não deveriam existir pela lei natural… Nós somos coisas que operam sob a ilusão de possuir um eu, essa acreção dos sentimentos e experiências sensoriais, programados com total garantia de que cada um é alguém, quando todos são ninguém… Acredito que a coisa digna a se fazer por nossa espécie é negar nossa programação. Parar de nos reproduzirmos, andar de mãos dadas em direção à extinção, irmãos e irmãs optando sair de um acordo cruel.

Rustin Cohle em “True Detective: The Long Bright Dark (#1.1)”

Dá para ver por esse pequeno trecho do que se trata o livro. E ele vai bem, bem mais fundo no poço e não nos apresenta nenhuma saída ou forma de redenção. Leve a sua própria luz.


“Paciência”, Daniel Clowes

Leitura deste mês para o “Clube de Leitura da Blooks” da qual faço parte. “Paciência” é interessante pois é uma história com o elemento de viagem no tempo de uma forma mais crua, menos interessada na mecânica e muito mais em explorar os efeitos. É um drama auto-contido, bem interessante.


“Dark Ecology: For a Logic of Future Coexistence”, Timothy Morton

“Dark Ecology” do Morton é um livro que traz tantas ideias e reflexões sobre nossa relação com o mundo que é um pouco difícil colocar em palavras. Ainda estou digerindo muita coisa e em estudo ativo — seguindo referências e com vários apontamentos para explorar. Agrilogistica, ecognose, e mesmo o conceito de hyperobjeto, que apareceu antes neste livro, que o autor iria expandir no livro descrito acima.

Um dos grandes pontos da análise de Morton e que aprecio muito é que precisamente a ideia de natureza — a divisão entre humanos e natureza, que delimita uma falsa oposição entre o artificial e natural — é responsável pelo antopoceno. “Natureza não é apenas um termo — é algo que aconteceu ao espaço construído por humanos, demarcando sistemas humanos de sistemas da Terra.” O que leva à agricultura, e daí seu termo agilogística, seja responsável pela ideia de Natureza, o que por sua vez é o responsável precisamente pelo antopoceno.

“O Antropoceno não destrói a Natureza. O Antropoceno é a Natureza em sua tóxica forma de pesadelo. A Natureza é a forma latente do Antopoceno, aguardando para emergir como catástrofe”.


O estilo do Morton é sempre surpreendente, costurando ideias aparentemente dispares, explorando constrastes, fazendo construções complexas. Honestamente, em alguns pontos se torna difícil seguir sua linha de pensamento, mas acredito que seja precisamente nessa perspectiva de cruzamento rizomático que sua exploração se encaixe precisamente com as abordagens desta ecologia amarga que ele nos apresenta para pensar em formas de coexistência.

Um livro que ainda irá reverberar bastante em mim.


“Tragédia em Mariana: A história do maior desastre ambiental do Brasil”, Cristina Serra

“Tragédia em Mariana” foi um livro que pretendia ler, mais como uma forma de mergulhar nesse hediondo episódio recente de nossa história pois ele me instigou a escrever um conto, minha forma de lidar com as várias dimensões do que aconteceu. Comecei a ler e havia a pouco tempo acontecido o desastre de Brumadinho. Em que a história se repetiu, não como farsa, mas como um drama. Se o desastre de Mariana foi muito maior em seu impacto total; seja ecológico ou em não-humanos, o de Brumadinho chega em um momento diferente no Brasil, se configurando como o maior acidente de trabalho da história do país, em um momento que precisamente estes direitos se tornam ameaçados. Se provocou imediatamente uma reação em relação à barragens acredito que foi por ser início de um novo governo que deseja que seu branding seja de “solucionar problemas”, quando a solução será apenas cosmética ou burocrática. E como este novo crime da Vale provocou a morte dezenas de vezes maior que Mariana, talvez crie uma pressão maior. O desastre de Brumadinho atravessa por sua própria conjuntura este outro acidente. Não poderia não deslocar a minha leitura.

O livro “Tragédia em Mariana” da Cristina Serra traz capítulos completamente emocionantes, explorando algumas histórias de sobreviventes ou de pessoas que perderam suas vidas. Mas também traz toda a repercussão e efeitos do desastre. Importante para entender como a união entre estado e empresas gerou um sistema que basicamente as empresas se “auto fiscalizavam”, basicamente um experimento em liberalismo, que cobriu de lama e morte e resultou no maior desastre ambiental do Brasil — e olha que nisso terá muita concorrência, talvez logo caía nesse funesto ranking, tendo visto que o Ministro do Meio Ambiente do Brasil já se mostrou ignóbil e aliado aos interesses das empresas. Leitura instigante, emotiva e aprofundada.

Comecei quase que imediatamente a trabalhar em uma continuação de “O Monstro de Mariana”, que quando possível compartilharei mais a respeito, que escrevo sob o título de trabalho de “A Noiva do Monstro de Mariana”.


“The Great Derangement: Climate Change and the Unthinkable”, Amitav Ghosh

Neste livro, Amitav Ghosh explora como nós, falhamos em dar conta de imaginar a escala e violência das mudanças climáticas, e de como isso não parece se traduzir em nossa literatura, história e política. Ele declara que nosso tempo ainda será visto como os tempos do “Grande Enlouquecimento”, de nossa cegueira coletiva para esta ameaça para qual temos uma galáxia de indícios e provas. Mas hyperobjetos impõem toda uma série de problemas que realmente são difíceis de lidar, de forma simples, mas que no retrospecto, nossa cegueira e ignorância nos passarão por enlouquecidos.

Um longo ensaio que nos convida a fazer perguntas, para mudar esse cenário. Interessante também a leitura de um indiano nessas questões, trazendo a visão de alguém fora do eixo anglófono, ou americano, que dominam tanto as emissões de carbono na atmosfera como o discurso público ao redor do tema. Oferece por essa diversidade tanto ao tema, que exploramos efeitos e locais de muito valor.


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *