“O Monstro de Mariana”

Sei bem que os deixei apreensivos ficando tanto tempo sem falar. Mas as ideias corriam de mim, em todas as direções, as palavras pareciam ser meras peças associadas arbitrariamente a sons guturais que nada significavam. Não conseguiria me expressar, nem que tentasse. Não era bloqueio, não era falta — pelo contrário: era excesso, era abundância; eu transbordava.

O Monstro de Mariana

Escrevi o conto “O Monstro de Mariana” em 2017 como resultado do “Final de Semana do Terror”, uma iniciativa de juntar escritores nos mais diversos níveis de escrita com escritores já consagrados seja pela crítica ou pelo mercado. Participei como um dos mais amadores, sem nenhum conto publicado no gênero. A ideia era passar um final de semana em um sítio isolado com autores convidados Ilana Casoy, Raphael Montes e Santiago Nazarian, e a editora Mariana Rolier. Via como uma chance de apresentar a história em que trabalhava na época e se encaixa no gênero e colher feedback e também como uma ótima experiência de imersão e aprendizado. Sentia que eles tinham muito a nos ensinar — e realmente foi uma experiência transformadora.

Passado um ano, eu ainda continuo trabalhando na história que trabalhava naquela época! E que alterei fundamentalmente com base nos feedbacks e nas conversas que presenciei. Um dos nossos objetivos era um mês a partir daquele encontro, escrever um conto para, juntos, publicar uma antologia. Como a história que trabalhava era um romance e não queria explorá-la em conto — para mim se trata muito da estrutura e da forma de desenvolvê-la. Cada história pede uma estrutura diferente e não via como colocar a minha no formato conto, então ao longo do evento eu buscava também descobrir sobre o que escrever.

O gênero sempre me fascinou em sua forma de abordar as questões sociais desse ponto de vista emocional, em situações limites e olhar fundo em nossos medos, em nossos desesperos. Queria falar algo relevante, afinal estava tão bem acompanhado. Monstros? Me parecia ser um tema que me fascinava e animava a fazer. Um dos meus filmes clássicos sempre foi o “O Monstro da Lagoa Negra”, além de ter visto quase todos os clássicos. Gostava muito do Monstro do Pânatno, personagem da DC que li em volumes quando lançaram os arcos escritos pelo Alan Moore. Já havia até mesmo ganhado um Startup Weekend com a temática de monstros, inclusive, com uma espécie de “Pokémon Go” com monstros genéricos, com a diferença de ser anos antes a Pokémon Go, em 2013. Monstros me parecia interessante. Mas qual? O folclore parecia ter uma quantidade interessante. Na época não havia ainda sido publicado o excelente “Abecedário de personagens do folclore brasileiro” de Januária Cristina Alves com ilustrações do Berje, mas eu sabia de uma quantidade interessante.  Em retrospecto talvez tenha apenas que agradecer pois o livro é tão interessante que teria sucumbido a abordar um dos descritos e não teria tomado a rota que tomei: eu criei meu Monstro.

O rompimento da barragem de rejeitos da mineradora Samarco, cujos donos são a Vale e a anglo-australiana BHP, causou uma enxurrada de lama que inundou várias casas no distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, na Região Central de Minas Gerais. Inicialmente, a mineradora havia afirmado que duas barragens haviam se rompido, de Fundão e Santarém. No dia 16 de novembro de 2015, a Samarco confirmou que apenas a barragem de Fundão se rompeu. Local: Distrito de Bento Rodrigues, Município de Mariana, Minas Gerais. Fotos Rogério Alves/TV Senado

Ou  melhor, a Samarco criou. A tragédia com a barragem em Mariana foi um evento que havia me marcado, mesmo a quilômetros do local. Havia visitado a cidade fazia alguns poucos anos, quando estive lá em um evento acadêmico. No meu trabalho também participei das reuniões que levaram a uma produção de conteúdo aprofundada pelo tema e fiquei bem impressionado com todo o impacto e o descaso aparente com a situação local e a própria gênese do processo.

Uma vez definido o “assunto” me peguei pensando em como o desenvolveria. Uma coisa era certa, queria emular em algum nível, o estilo confessional do H.P. Lovecraft. Mas é claro que eu também queria fazer diferente. Logo defini uma protagonista mulher, para sair do modo tradicional lovecraftiano,  e rapidamente já a a batizei também de Mariana, para buscar o espelhamento entre o nome da protagonista e o nome da cidade. Mais curioso ainda é que o nome da editora que trabalhou em nossa antologia também é Mariana. Sincronicidade? A definição da protagonista então foi uma exploração que eu devo em muito a “Aniquilação” do Jeff Vandermeer.

Local: Distrito de Bento Rodrigues, Município de Mariana, Minas Gerais. Fotos Rogério Alves/TV Senado

Queria sair do modelo “Nós vs Eles” das histórias tradicionais de monstros enquanto tentava dar conta de uma tarefa que, acredito, estão acima dos meus poderes enquanto escritor: escrever levando em conta, e mergulhando, no não-humano. Queria que houvesse um encontro com esse Grande Outro, o que me levou imediatamente a explorar a ideia de “desmarginação”, presente na obra de Elena Ferrante. Queria uma imersiva experiência sensorial e queria fazer uma exploração desse tipo de história confessional quando ela mesmo se torna auto-referencial, uma propriedade de linguagens de programação e equações que achava entravam em sintonia com o meu projeto para este conto.

Local: Distrito de Bento Rodrigues, Município de Mariana, Minas Gerais. Fotos Rogério Alves/TV Senado

O meu conto é o último da antologia em uma seção com o título “Redenção” e pode ser conferida em “Um Ótimo Dia para Morrer: 14 histórias de terror e suspense” com Antônio Guerrieri, Eduardo Muylaert, Ibrahim Cesar (127.0.0.1), Jéssica Milato, Léo Mandu, Mário S. Pinheiro, Pablo Zorzi, Pietra Von Bretch, Saulo Pinheiro, Thais Messora e Vera Carvalho Assumpção, e dos três convidados especiais, Ilana Casoy, Raphael Montes e Santiago Nazarian. Editado pela Mariana Rolier.

Já estou no processo de escrever uma continuação a este conto, para qual tenho um projeto maior. Publicarei aqui as novidades.

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