Então eu fui ao caleidoscópio, vibrante e mercantilizado até a medula evento conhecido como Campus Party. E adorei. Aprendi muitas coisas. Inclusive de como a produção simbólica e envolvimento com as marcas que as ações de marketing e publicidade realizam lá, de alguma forma, imbuiam de sentido ao menos que por alguns minutos ou menos a vida dos que envolviam nos atos.
Ouvi muitos reclamando, pelo Twitter, desse fato pejorativamente. Para mim, foi um laboratório em larga escala, ainda que trabalhasse com uma demografia e segmentos bem específicos de público.
Uma das áreas que eu mais gostei foi sem dúvida a do Barcamp. Assuntos mais diversificados, maior interação entre as pessoas e ótimos assuntos.
Conheci o Lawrence Lessig, o que foi ótimo. Foi o meu momento fanboy no Campus.
Me inscrevi na área de Criatividade/blogs e alguns dos painéis foram realmente interessantes, enquanto outros perdas de tempo, mas isso é normal. Aposto que os painéis que desagradaram foram os melhores para alguém e vice e versa. Vi como muitos blogueiros super descolados e “famosos” são pessoas sem embasamento nenhum e que não possuem reflexões além dos lugares comuns, da atividade que desempenha todos os dias. De onde eu venho chamamos isso de “alienação”.
Faço estudos em comunicação e o uso errôneo do termo redes sociais que causava arrepios. E eu me arrepiei muito. Redes sociais, aliás o próprio termo “rede”, são metáforas para descrever que existe algum tipo de interação entre os nós, os atores que em conjunto e analisando as os outros atores com quem interagem, dependendo dos protocolos culturais, sociais e econômicos emerge um padrão específico de ligações, que chamamos “rede”. Mas ao que parece, as pessoas bem informadas que estavam lá associavam “redes sociais” com Twitter, Orkut e Facebook. Que não passam de interfaces de aplicações, com todos os agenciamentos possíveis, intencionais ou não, que seus desenvolvedores criaram no momento de sua execução. As redes sociais se apropriam desta ferramentas, claro. É uma forma de gerenciar a sua rede e até mesmo visuizá-la melhor. Mas de forma algum deveriam ser confundidos com a rede em si. São plataformas de relacionamentos. Mas de forma alguma, estar adicionado em um perfil o coloca automaticamente na rede social daquela pessoa. Pode ser o catalizador ou primeiro ponto de contato, mas somente a interação entre os atores é o que o associa a uma rede específica.
Veja o número de Dunbar. É uma pesquisa interessante que mostra que nosso cérebro somente consegue lidar com no máximo 150 amigos. Conexões embuídas de sentido. Para além desse número não temos interações verdadeiras. E mesmo podendo adicionar 1000 pessoas em um perfil ou mais, ao analizar-se as plaraformas de relacionamentos, descobriu-se que as pessoas ainda se limitam aos 150 amigos. Se você segue alguém no Twitter e é um de seus 100.000 seguidores, me desculpe dizer isso, mas você não faz parte da rede social dela/dele. Talvez ele faça parte de sua obsessão, sempre acompanhando, tentando interagir, mas isso é apenas um efeito perverso da mídia que embodera certos individuos quando os mesmos adquirem imensa visibilidade, denominado por Merton e Lazarsfeld como “atribuição de status”. Mas ainda assim, ela/ele não faz parte de sua rede social, apenas de sua imaginação. O que é nem triste.
Uma coisa que senti falta foi conhecimento de pessoas que trabalham com comunicação de teoria da comunicação. Conceitos simples como “espiral do silêncio” eram desconhecidos. Não sei se é preguiça ou por acharem que os conceitos das teorias não se aplicam à Internet, mas se aplicam. A todo momento, em diversas discussões eu me sentia como se estivesse vendo alguém tentando reinventar a roda ao invés de simplesmente usá-la em novas construções, ideias e soluções. Quando Hakim Bey disse que conhecer a história é estar condenado a ver idiotas a repetindo. Ele estava certo. o pior foi sujeitos que já trabalharam em grandes veículos do broadcasting dizerem que “nunca antes na história humana tivemos esse tipo de interação social”. Hahahaha. Eu ri.
Só para citar um exemplo. O projeto “Doe mais que um clique” que apareceu em um painel por lá. O criador estava lá e reclamou da falta de adesão, etc. A culpa seria da falta de engajamento das pessoas, etc. Mas se analizarmos bem, usando a plataforma do Twitter para gerar esse tipo de ação, para mim, era óbvio que não era a plataforma adequada. Primeiro: Acompanhar todas as mensagens no Twitter é impossível. Por melhores que sejam as ferramentas para isso, tentar se atualizar com todas é virtualmente impossível. A pessoa termina por acompanhar suas listas, e alguns assuntos que lhe são caros. Terminamos por pregar para uma audiência de convertidos, por assim dizer. Muita mensagem relevante fica perdida no fluxo. Segundo: ao contrário do que foi dito, mesmo doar sangue “não custa nada”. Cada ação humana tem algum tipo de custo. E essa informação não é irrelevante. Doar sangue fica dependente do histórico médico da pessoa, disponibilidade de tempo, disponibilidade de locomoção até o lugar, momento emocional e mesmo envolvimento com a mensagem. Ás vezes as pessoas estão simplesmente cansadas de tanto trabalhar. E analisando os prós e contras, resolvem ficar em casa. E talvez fazer um “retweet”, passar a mensagem adiante, para ela já signifique alguma coisa. Ela “participa” da ação. E isso nos leva para o terceiro item: difusão da responsabilidade social:
Faça um cabo de guerra sozinho e puxe como um touro. Faça em equipe e puxe como um…sei lá, no máximo um boi.
Em 1883, o francês Max Ringelmann conduziu esse estudo bastante simples, mas que mostra que o trabalho em equipe nem sempre garante os melhores resultados. Na verdade, pode nos tornar mais preguiçosos. Ringelman instalou um medidor de forca de tração em uma corda usada em um cabo de guerra e descobriu que as pessoas faziam menos força em grupo do que quando puxavam sozinhas. A esta característica grupal foi dado o nome de Ringelman Effect ou Social Loafing (preguiça social). E por que acontece esse fenômeno? Difusão de responsabilidade. Quanto mais difícil de avaliar e/ou isolar uma performance individual diluída em um esforço grupal, menor a motivação de seus participantes. Lembra do seu trabalho em grupo na faculdade? Lembra da última pelada com os amigos? Tem sempre um fazendo cara de esforço pra disfarçar. É o “RINGELMAN”! Ou o “MAX” (mais fácil). Procure o Max na sua empresa ou escola amanhã, tenho certeza que vai ser fácil.
Mas a verdade é que todos nós batemos palma mais fraquinho quando fazemos parte de uma platéia grande demais.
A vida em grupo é boa. Mas é uma formação que distorce motivações, propósitos, egos e responsabilidades. [fonte]
Não sou contra movimentos de ajuda, claro. Alguns funcionam. Mas é como planejar campanhas publicitárias, deve-se estudar como mobilizar as pessoas corretamente. E em se tratando de esperar a bondade humana ainda vou mais além e digo que devemos esperar um ROI mínimo. Bem próximo do zero. Mas isso é outra história, papo de quem vê o copo meio vazio.
Enfim, foi alguma das observações no Campus Party, mas tenho uma pilha aqui esperando para serem melhores analisadas, corrigidas, etc.

