Esta é uma adaptação de um texto de Kevin Kelly, no blog Technium sobre artistas e renda em tempos de internet e cauda longa, sendo uma postagem explorando a idéia dos 1000 Fãs Verdadeiros. Esta tradução é autorizada pelo autor que disponibiliza seu conteúdo em uma licença Creative Commons.
Eu tenho pesquisado novos modelos de negócio para artistas no final da cauda longa. Como alguém pode se sustentar em um micro-nicho? É possível, particularmente neste reino de cópias sem custo? Eu propus a idéia dos artistas cultivarem 1000 Fãs Verdadeiros, sobre a qual eu escrevi em uma postagem anterior. Foi uma boa tese que conseguiu bastante atenção dos blogs, mas que era escassa em informação real. Eu solicitei números reais daqueles que me escreveram, e eu também procurei outros que tinham uma reputação por possuir uma base de fãs dedicados, e lhes pedi que compartilhassem suas experiências.
Um dos artistas que entrei em contato foi o músico Robert Rich, o qual eu conhecia apenas como um fã (mas não um Fã Verdadeiro). Rich foi um dos pioneiros da música ambiente, e uma força na cena new age de Bay Area no começo dos anos 1980. Ele é prolífico, tendo lançado por volta de 40 álbuns nos últimos 20 anos, muitos em colaboração com outros músicos. Entre seus primeiros álbuns está “Numena”, que fez sua reputação, e entre os últimos está “Eleven Questions”, o qual foi gravado com parceiros em sete dias no seu home studio.

Robert Rich foi um dos primeiros músicos profissionais a começar a lidar diretamente com seus fãs via seu website, motivo pelo qual entrei em contato. Ele me escreveu uma resposta cândida, meticulosa e cheia de insights. Ele modera meu entusiasmo pelos 1000 Fãs Verdadeiros com um realismo cauteloso nascido de realmente ter tentado a idéia. O sumário de sua experiência é tão pertinente e detalhado que eu senti que valia a pena postá-la por completo. Com sa permissão, assim segue, editada minimamente.
Eu concordo fortemente com sua tese básica [dos 1000 Fãs Verdadeiros], que artistas podem sobreviver na ponta da cauda longa ao manter a ajuda de seus fãs dedicados, mas talvez eu possa modular seu otimismo bem-vindo com uma leve dose de realismo, temperada por algumas reflexões pessoais.
Eu tenho operado em uma premissa similar á sua por quase 30 anos, antes da internet tornar esta idéia mais praticável. Eu queria fazer o tipo de música descompromissada e introspectiva que me afetou profundamente quando ouvi pela primeira vez lá no meio dos anos 1970. Por causa do resultado lento da popularização da cultura psicodélica, certos memes saíram da avant garde para a cultura popular, e os publicadores de um modelo antigo permitiram tentar um marketing experimental de formas de arte para o mainstream. Assim, na mente de um adolescente crescendo no Vale do Silício, surgiu a combinação diferenciada de música espacial européia, minimalismo, barroco, world music e industrial/punk, muitos dos quais receberam os benefícios da distribuição mundial e marketing - mesmo que todos nós considerássemos isso “underground” na época.
O que significa que eu cresci como um benfeitor do velho sistema, antes das análises demográficas do marketing ajudassem a estragar a disseminação do pensamento radical através das fronteiras subculturais. Eu percebi isso através da influência da cultura experimental no mainstream, que eu queria ser um artista como aqueles que me tocavam profundamente. Eu queria dizer minha própria verdade, a despeito do custo. Eu quis servir o papel do xamã moderno, enquanto abraça as complexidades e ironias do nosso mundo moderno.
Quando alguém estabeleceu um curso como este, rapidamente se ponderará as realidades financeiras da obscuridade. Eu me lembro dizendo a mim mesmo quando tinha 15, “Se eu posso tocar uma pessoa profundamente, isso é melhor do que entreter milhões de pessoas mas não deixar nada significativo para trás”. Isso era a cauda longa falando, eu suponho que quando você multiplica por mil, têm-se a sua tese.
Eu comecei a auto-publicar minha música em 1981, encontrando dificuldade para ser pago por distribuidores astutos, tentando manter os registros de todas as lojas onde eu tinha meus álbuns em consignação. Eu estava me sobressaindo com os anos, quando algumas pequenas gravadoras demonstraram interesse em me ajudar, e eu pude avaliar por mim mesmo sua infra instrutura. Acho que me beneficiei imensamente dessa exposição, através de gravadoras como Hearts of Space e outras menores na Europa. Eu sinto em retrospectiva como se tivesse me esquivado do campo em colapso da distribuição independente, no tempo onde pequenas companhias poderiam empregar uma rede de distribuição de tamanho médio, para conseguir o interesse de ouvintes que de outra forma poderiam nunca ter sabido que gostavam desse tipo de música.
Se eu não tivesse lá por aquela breve janela de exposição, duvido que eu teria meus “1000 Fãs Verdadeiros” e provavelmente manteria meu trabalho diário. Se eu não tivesse também desenvolvido habilidades em engenharia de som e gravação, eu poderia estar com fome. Se eu não estivesse na expansão da internet e outros meios de distribuição e promoção, eu teria desistido à muito tempo atrás. Nesse sentido, eu concordo de todo coração que as novas tecnologias abriram as portas para que artistas como eu sobrevivessem. Mas é uma luta constante.
O tipo de artista que sobrevive na cauda longa é o tipo que seria feliz fazendo nada mais, que de boa vontade sacrificaria segurança e conforto para a chance de comunicar algo pleno de sentido, esperando conseguir a atenção desses poucos no mundo que procuram o que eles também acham ter sentido. é de alguma forma uma existência solitária, um pouco como um faroleiro jogando luz na escuridão, na esperança de que esta ação possa ajudar alguém não visto.
Agora em meus quarenta anos, eu continuo dirigindo ao redor do país por alguns meses do ano, fazendo pequenas apresentações que variam em audiência de 30 a 300 pessoas. Eu sou meu próprio agente, meu secretário, meu advogado, meu motorista, meu roadie. Eu durmo nos sofás das pessoas ou ocasionalmente aproveito o luxo de um hotel barato.
Em seu artigo você cita o termo “micro celebridades”, o que soa ironicamente verdadeiro para mim. Eu suponho que eu experimente um pouco disso, quando algumas das 600 pessoas que eu vejo em turnê vem até mim e me dizem que minha música é muito importante para eles, que salvou suas vidas, que eles não podem imaginar porque não estou me apresentando para 3000 luxuosos assentos, do que esta galeria de arte ou planetário, ou livraria.
Na realidade a vida de uma “micro celebridade” lembra mais o destino de Sísifo, o qual a rocha rola para baixo da montanha toda vez que ele alcança o topo. Eu sinto-me exausto mas satisfeito pelo pensamento de que algumas pessoas realmente se importam com esta música. Ainda assim, uns poucos meses depois está tudo quieto novamente e as vendas de CD/download diminuem novamente. Se eu tomo o o tempo para concentrar por um ano no que espero ser um álbum de ruptura, o tempo de silêncio se amplia a um vácuo e o interesse parece desaparecer. Quando eu finalmente lanço algo que sinto ser uma nova direção, eu manejo para vendê-lo aos mesmos 1000 Fãs Verdadeiros. A rocha volta ao fim da montanha e é hora de começar a rolar novamente.
Então vamos dar uma olhada nas finanças. Se eu posso fazer por volta de $5 a $10 por download ou CD diretamente vendido, e eu vendo 1000, é claramente um máximo de $10000 para o esforço daquele ano. Isso não é um sustento. Vamos dizer, depois de 20 espetáculos eu consigo por volta de $10000 por três ou quatro meses de esforço diário. Isso não é um sustento.
No meu caso eu sou sortudo. Eu posso aumentar essa pálida renda através de alguns dos benefícios das “”micro celebridades” incluindo pagamentos de licenciamento por uso em samples e em filmes, arquivos de sound design, e uma renda suplementar por gravações de estúdio e engenharia de som. Então, eu faço tanto dinheiro quanto nosso lixeiro local; e eu não cheiro tão mal no fim de dia de trabalho. (Note que se as leis de copyright desaparecessem então muito desses rendimento suplementar iria secar, então você pode imaginar que tenho sentimentos confusos sobre os dois lados do debate de informação livre)
Graças á internet, estou fazendo mais dinheiro agora, vendendo diretamente aos 1000 Fãs Verdadeiros, do que eu estava durante os dias de Hearts of Space vendendo 20000 - 50000 cópias. Mas eu não tivesse me beneficiado do imenso esforço promocional que levei pela HOS para vender estes álbuns, provavelmente não sobreviveria hoje como um artista em tempo integral.
Eu tenho por volta de 600 “Fãs Verdadeiros” e 2000 ouvintes sérios…mais na margem talvez. Minha base de dados possui por volta de 3000 nomes, mas ouço apenas mais dessas pessoas todo ano. Ocasionalmente alguém novo aparece e compra tudo o que já fiz. Não é uma resposta simples. Por exemplo, sei que tenho ao menos mais de 500 fãs sérios na Rússia que nunca pagaram por nada. Pegam tudo como bootlegs. Meus 4 ou 5 “Fãs Verdadeiros” na Rússia me informaram destas coisas. Muitos “fãs” não se sentem compelidos a pagar pela arte que os toca, ou talvez eles não podem pagar pagar por causa das circunstâncias econômicas ou as leis inversas da conveniência.
O número de novos “fãs” toscamente equivale ao atrito talvez. Eu certamente estou apto a comunicar-me ais diretamente com cada indivíduo, mas isso também significa que eu tenho menos tempo no dia para realmente criar nova arte (metade do dia respondendo e-mails não é incomum). A distribuição digital parece diminuir o valor percebido e desejabilidade. A facilidade de acesso reduz qualquer sentido do que seja especial ou pessoal. A qualidade do áudio comprimido e a falta de arte física criam o sentido de diminuir o valor colecionável. Eu tento duramente combater suas forças com alta qualidade de áudio e informando os ouvintes sobre a importância da fonte…mas as pessoas nem sempre pensam nos detalhes.
Uma advertência além: é fácil ficar preso nas expectativas desses Fãs Verdadeiros, e com um tênue fluxo de renda, um artista arrisca ficar pobre ao puxar muito além as fronteiras de seu estilo de vida ou predisposição. Eu supostamente tenho um pouco de reputação por ser um dos artistas divergentes - talvez imprevisíveis - e desta perspectiva eu vejo um pouco de trade off entre ignorar estas expectativas ou ceder a eles. Se nós tocamos para as mesmas 1000 pessoas, e continuamos a fazer basicamente a mesma coisa, eventualmente os fãs se tornam fartos e não sentem mais a necessidade de comprar o modelo deste ano, quando ele é quase idêntico ao ano anterior mas com uma pequena diferença no tom de preto. Ainda quando os fãs favoritos de artistas começam a passar da zona de conforto que os fazem Fãs Verdadeiros para começar, eles estão apenas propensos a mover sua atenção para frente, eles apenas estarão confortáveis, dane-se o que você fez esse ano.
Eu não quero ser um girino em uma poça de lama. Quando a audiência é tão pequena, uma consequência da especialização é a extinção. Tentarei explicar.
A biologia evolucionária nos mostra uma metáfora para estas fronteiras estilísticas, em termos de diversidade de espécies e endogamia ((Ref. E.O. Wilson)). Quando uma espécie sub-populada se torna isolada, seus traços começam a divergir do grupo maior para eventualmente formar uma nova espécie. Ainda assim, sob essas condições de isolação, a diversidade genética pode decair e a espécie especializada ao novo ambiente se torna mais ameaçada por mudanças genéticas. Quanto maior a população, menos riscos de maus cruzamentos. Se aquela população continua conectada com o grupo principal de sua espécie, isso possui ao menos a chance de superar a especialização e maior a chance de sobreviver em múltiplos ambientes.
Esta metáfora se torna revelante para artistas e Fãs Verdadeiros porque nossa cultura pode ficar obcecada com idéias de estilo e demografia. Quando um artista conta com um compromisso pessoal tão intenso para com uma pequena população, é como um animal que conta apenas com o fruto de uma árvore para sobreviver. Isto é a receita da extinção. Distinções entre demografias lembram montanhas em posição de dividir uma população de outra. Eu prefiro um mundo onde não existam barreiras entre as audiências e elas definam-se pela arte que amam. Eu quero um mundo de cães vira-latas. Eu prefiro me sentir mais confortável pensar em ter uma base maior de pessoas interessadas em meu trabalho, do que apenas fazendo coro.
Realmente a internet é uma ferramenta que permite artistas ampliar a sua audiência, e permitem a indivíduos na audiência a ampliarem seus gostos, explorar novos estilos, procurar o que os surpreendam - se eles quiserem surpresa, a internet lhes oferece. A internet também dá ferramentas melhores para mirar demografias específicas e fortalecer o que previnem a aceitação de novas idéias, levando as pessoas através de gostos e estilos determinados algoritmamente. Companhias podem usar modelos demográfico e rastrear padrões de busca das pessoas para alcançar seus gostos inciais e fortalecê-los ao invés de ampliar seus horizontes. O problema não recaí na tecnologia da internet, mas também nas realidades do capitalismo e psicologia humana.
Como muitas tecnologias, a internet é moralmente neutra e nós podemos usar melhor seus poderes para ampliar a expressão artística, ajudar artistas menores a fazer uma renda melhor ao se comunicarem diretamente com a audiência, a criar ferramentas que ajudem as pessoas a descobrir o surpreendente e iconoclástico, de que reforçar apenas aquelas inclinações existentes. Artistas famintos irão provavelmente continuar famintos, ainda que talvez com novas ferramentas para ajudá-los, e como no passado, alguns desses artistas usarão essas ferramentas para construir castelos de areia ou obras de arte.
- Robert Rich
Eu estou profundamente grato a Robert por sua generosa exposição de suas finanças reais. Pouquíssimos de nós querem fazer isso. Mas a verdade do dinheiro é poderosa. Nos dias a seguir irei reportar o sumário da economia da vida real dos Fãs Verdadeiros que outros artistas estão compartilhando comigo ((Esses números se encontram no artigo O Caso Contra os 1000 Fãs Verdadeiros.)).
Esta é uma adaptação de um texto de Kevin Kelly, no blog Technium sobre artistas e renda em tempos de internet e cauda longa, sendo uma postagem explorando a idéia dos 1000 Fãs Verdadeiros. Esta tradução é autorizada pelo autor que disponibiliza seu conteúdo em uma licença Creative Commons.
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